segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Excertos dos últimos livros que li I

Era quase meio-dia. Na ampla Rua El Azhar, transbordando duma multidão colorida e despreocupada, Gohar voltou a deparar com a plenitude. Era aquele o seu universo familiar, no seio desta multidão indolente, espraiando-se assim pelos passeios ou pela calçada, e isto apesar do intenso tráfego dos automóveis, dos fiacres, das carroças, e até dos eléctricos que passavam com a velocidade de bólides assassinos. O brando sol do Inverno vertia o seu benfazejo calor por sobre este fervilhar inextricável.
Milhafres pairavam nas alturas, mergulhavam sobre a multidão, logo retomando o voo com um naco de carne podre no bico; ninguém dava sequer pelas sábias manobras de tais aves. Grupos de mulheres paravam diante das lojas de tecidos; asperamente discutiam horas a fio para comprar coisas como lenços estampados. Miúdos divertiam-se enfurecendo os condutores de veículos, pondo-se de propósito ali no meio da rua, a atrapalhar. Os condutores lançavam pragas, amaldiçoando-os a eles mais às mães que ali não estavam,e acabavam por esborrachar uns quantos.
De dentro de todos os cafés ladeando as ruas, aparelhos de rádio difundiam a mesma voz lamurienta dum cantor em voga. E lúgrebe coisa era a música que lhe servia de acompanhamento, quanto às letras, lá iam penosamente dando conta de desgraças e lamentos dum amor contrariado. Gohar lembrou-se do vizinho morto, da gritaria das carpideiras, e estugou o passo. Mas não havia meio de fugir desta voz enlutada, ela estava em toda a parte, dominando o tumultuar da rua.
Gohar parou instintivamente, como se pressentisse uma zona de brandura, a promessa duma deliciosa alegria por entre o confuso rumor ambiente. Diante duma loja vazia viu um homem de certa idade, de roupa cuidada, dignamente sentado numa cadeira, olhando passar a multidão com um ar nobre e de despego. O homem tinha uma atitude majestosa extraordinariamente surpreendente…

"Mendigos e altivos - Albert Cossery"

sábado, 8 de novembro de 2008

Já não sou quem era

A arrumar um armário encontrei papéis antigos que escrevi e descobri que fui doce e que amei.
Revi um pedaço da minha vida e constatei que acreditei e falhei.
Concluí que me tornei numa pessoa diferente.
A outra morreu ou foi levada pelo tempo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

V



Apareceu com a sua máscara habitual que só eles os dois conheciam. Já tinha passado mais de um ano. Às vezes ela lembrava-se dele e sabia que mais tarde ou mais cedo ele voltava a aparecer. O sentimento que os unia era muito forte embora mal se conhecessem. Ele voltou e ela não se mostrou surpreendida. Abriu-lhe a porta e deixou-o entrar. Recebeu-o da forma como ele gostava. O tempo passou mas o desejo permanecia constante e intenso.
Ele dizia “Remember, remember the 5th of November” e ela nunca o esqueceu.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Esta insatisfação, não consigo compreender...

Os dias sucedem-se uns atrás dos outros. O tempo não pára nem abranda para conseguires fazer tudo aquilo que desejas. Tentas fazer a melhor selecção de forma a sentires uma frustração menor. Tens a mania que sabes tudo aquilo que queres e o que não queres. És cada vez mais exigente contigo e com os outros. Praticamente nada nem ninguém te surpreende. Mas continuas a querer encontrar. Tens momentos felizes em que cantas, ris e danças. No dia seguinte já passou e volta tudo ao mesmo.
Fazes um esforço para continuar a acreditar e voltas à tua luta utópica.
O tempo escasseia mas achas que ainda não é tarde demais.
Estás cego. O teu sonho cruzou-se contigo e tu nem o viste.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O verdadeiro part-time

- O que fazes?
- Entre outras coisas, sou vendedor de sonhos.
- O quê? Que grande tanga! Os sonhos não se podem vender ou comprar.
- Diz-me qual é o teu sonho e vais ver.
- És portanto uma alma bondosa que anda aqui para fazer os outros felizes. Em troca de mentiras?
- Se acreditares, é a verdade.
- Deixa-te de tretas comigo. Acho que fazias melhor se vendesses produtos oriflame ou herbalife.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

A patilha sensual

Gosto de ver uma boa e bonita patilha num homem.
Aquela porção de pêlos que ligam a barba ao cabelo à frente da orelha deve ser bem definida e desenhada sem ser muito curta ou fina.
Sou capaz de ficar num estado de encantamento a olhar durante algumas horas para as patilhas do Stuart Staples.
Ainda bem que já falta pouco tempo para voltar a vê-las ao vivo.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Sensações LXIII



Tindersticks - No more affairs

Se eles não vierem a Lisboa, vou eu ao Porto em Fevereiro de 2009...

domingo, 2 de novembro de 2008

(Are you) the one that i've been waiting for?

Um dia encontrei-te.
A partir daí escrevemos cartas um ao outro. Gastámos muitas palavras que teimavam em sonhar e iludir.
Andámos num balão que voou pelas nuvens da nossa imaginação.
Ficámos muito juntos, a sentir e às vezes sem nada dizer.
As despedidas doíam mas existia sempre a próxima vez.
Um dia culpei as palavras que estavam cansadas.
Um dia olhámos um para o outro mas desencontrámo-nos
Depois percebemos que o balão se perdeu.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Tenho saudades de...

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Come home

Estive a contar as casas em que vivi desde que nasci. Foram dez.
Tenho recordações de todas, excepto da primeira onde nasci e vivi poucos meses.
Era uma pequena vivenda e a parte detrás da casa ficava encostada à linha de comboio.
Gostava de saber como seria viver ali e ouvir todos os dias os comboios que ligam duas importantes cidades da minha vida.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Estamos vivos

Existem memórias muito bem guardadas.
Existem pessoas que fazem parte delas.
Existem acontecimentos que as fazem acordar.
Existem reencontros que despertam as emoções.
Existimos nós.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Ces petits riens

Dantes havia tempo.
Dantes existia o ontem, hoje e amanhã.
Dantes, o homem e a mulher conheciam-se devagar.
Dantes namoravam.
Dantes faziam amor.
Dantes eles sabiam o que eram um para o outro.
Dantes sonhavam, riam e choravam juntos.
Dantes amavam.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Sensações LXII



O meu sábado à noite foi assim...

domingo, 26 de outubro de 2008

26

Hoje ias ver o jogo com uma das tuas equipas verde e branca. Hoje ias ligar-me e eu ia dizer-te que estou cansada, que não tenho tempo e que ia ver o jogo aos bocadinhos.
Hoje ias gritar golo.
Hoje ia escrever-te uma dedicatória atrás de uma fotografia e provavelmente escrevia uma carta curta e enviava-te pelo correio. Quando olhasses para a fotografia ias ficar contente por veres um rapazinho já crescido e que já anda na natação como tu gostavas.
Querias muito ter um neto. E tiveste.
Ele fala em ti para nunca te perdermos. E orgulha-se das medalhas que deixaste. Diz que tu e ele chegaram sempre em primeiro lugar no passeio avós e netos.

sábado, 25 de outubro de 2008

Sensações LXI



O meu querido Antony voltou.

Antony and the Johnsons - Another world

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O despertar

Acordou naquele momento em que já não é noite e ainda não é dia.
Acordou dos sonhos obscuros e cheios de segredos do subconsciente.
Abriu os olhos e deixou-se ficar colado à cama. Lembrou-se quem era e da vida que tinha.
Continuava a debater-se com o seu eu, de que não gostava. Não conseguia adaptar-se ao mundo em que vivia.
Já tinha pensado em deixar tudo. Vendia a casa e o carro. Deixava a cidade, o emprego, a família e os amigos.
Já imaginou ir para um país longínquo, levar o pouco dinheiro que tinha e começar do zero. Gostava de aprender com um povo mais espiritual e deixar esta sociedade materialista.
Sentimentalmente, não se sentia preso a ninguém. Não tinha nenhum compromisso. Tinha apenas uma lista de mulheres, que foi coleccionando ao longo dos anos. Nunca amou. Nunca sentiu vontade de ficar com uma mulher para sempre. Teve umas paixões mas duraram pouco. Ao fim de algum tempo, aborrecia-se e já nada fazia sentido.
A família que tinha era o pai e os irmãos. Via-os poucas vezes. Não existia um elo de ligação forte entre eles. Todos viviam e sobreviviam à sua maneira. Era muito apegado à mãe, mas ela já tinha morrido há 5 anos e já se tinha habituado à sua ausência.
Continuava a ir pôr flores regularmente ao cemitério e falava sozinho sentado ao lado da campa. Já lhe tinha contado que um dia se ia embora. Pensou que a mãe ia compreender. Ele sempre foi o filho mais estranho, diferente e sensível.
Começou a ouvir alguns pássaros a cantar no parque ao pé da sua casa. Amanheceu.
O momento mágico entre a noite e o dia, acabou.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Changes

Os tempos mudaram e é com algum pesar que constato que com quarenta anos sou mais assediada do que quando tinha vinte ou trinta.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Efémero

Devias desistir de mim. Afinal, o que tenho para te dar é muito pouco.
Não existe continuação entre um dia e o outro mais além.
Não existe, o futuro.
Os momentos passam tão depressa que nem sabemos bem se foram vividos.
Não esperes nada de mim.
Se quiseres, podes ter tudo.
Eu sou o nada.

domingo, 19 de outubro de 2008

Sensações LX




Noite no Maxime...

No teu poema
existe um verso em branco e sem medida,
um corpo que respira,
um céu aberto,
janela debruçada para a vida.

No teu poema
existe a dor calada lá no fundo,
o passo da coragem em casa escura,
e aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite,
o riso e a voz refeita à luz do dia,
a festa da Senhora da Agonia
e o cansaço do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
existe o grito e o eco da metralha,
a dor que sei de cor mas não recito
e os sonhos inquietos de quem falha.

No teu poema
existe um canto chão alentejano,
a rua e o pregão de uma varina
e um barco assoprado a todo o pano.

Existe um rio
o canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra e um só destino
a embarcar no cais da nova nau das descobertas

Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo o mais que ainda escapa
e um verso em branco à espera de futuro.

Escrito por José Luis tinoco e cantado pela Simone de Oliveira

sábado, 18 de outubro de 2008

E hoje é dia de...



Simone de Oliveira no Maxime

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sensações LIX

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Nothing really ends



dEUS

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O feitiço da lua

A lua não me deixa dormir.
Acorda-me o corpo que teima em resistir ao cansaço dos anos.
A mente perde-se em sonhos impossíveis e a imaginação fica mais fértil e assustadora.
Leva-me a sítios que eu nunca vi e faz-me acreditar no impensável.
Em areias movediças enterro-me.
E ninguém pode salvar-me.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Corpo são I

Hoje, na aula de yoga, em alguns exercícios, a professora disse-nos para colocarmos a pélvis para a frente.
Ninguém se lembrou que a pélvis e a libido são amigas.

domingo, 12 de outubro de 2008

the first kiss

Aquele beijo intenso poderá durar vários dias, até que me dispas e descubras tudo o que é visível em mim.
Depois sem prestares mais atenção, com o desejo saciado, descolas a tua boca da minha.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Sensações LVIII



Deolinda - Clandestino

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Confusões com deuses

- Gostas de Deus?
- Se eu gosto de Deus? Já sabes que não acredito...
- Não. Estava a olhar para aqueles cartazes. É dEUS.
- Ah. Não curto muito.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Svo hljótt

Há dias em que só ouço o meu coração a bater e apetece-me dizer ausente.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Sensações LVII

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Sometimes it hurts

Era mais fácil, olhos nos olhos.
Era mais fácil, se a distância fosse curta.
Era mais fácil, se não existisse a ilusão e a desilusão.
Era mais fácil, se não existisse dor.
Era mais fácil, dizer sim ou talvez.
Era mais fácil, acreditar sem questionar.
Era mais fácil, não ter memória.
Era mais fácil, não perder.
Era mais fácil, o arrependimento.
Era mais fácil, conseguir amar.