Parei muitas vezes no Sobreiro. Era sempre com prazer que via a obra do Sr. José Franco e falava com ele. Era um homem humilde, bem disposto e que se dedicava de corpo e alma ao seu trabalho de oleiro. Obrigada Sr. José Franco!
Adoro sótãos. A minha adolescência e juventude ficou ligada a um sótão. Subia umas escadas bonitas de madeira. Em frente era o meu quarto. Do lado esquerdo era uma divisão pequena onde a minha mãe passava a roupa a ferro e costurava na máquina de costurar que lá estava. Do lado direito era o sótão com as telhas e tínhamos de andar lá baixados. Esse sótão sempre teve algum mistério pelas coisas que estavam lá guardadas. Eram livros, cadernos, desenhos da escola primária, revistas antigas, postais, jogos, trapos, umas gaiolas de umas rolas que existiram em tempos e segredos e muito pó. Uma mala cheia de cartas de amor que a minha mãe e o meu pai trocaram quando ele esteve na Guiné. Será que o amor e muitos sonhos cabem dentro de uma mala? O meu quarto era comprido, com uma alcatifa azul no chão e as paredes de corticite. Ao fundo estava a cama de madeira clara de pinho. Mais ao meio estava a escrivaninha onde estudei muitos anos, que tinha prateleiras em cima com livros. Do lado contrário estava um guarda-roupa e na extremidade contrária do quarto estavam dois sofás pequenos ( que a minha mãe chamava de senhorinhas), uma arca com enxoval oferecido pela avó e tias e uma mesa com o meu gira-discos. Aí havia uma janela pequena que dava para o telhado e de onde podia avistar parte da cidade, o rio Mondego e a ponte. Passei muito tempo neste quarto, em que me sentia independente e era o meu refúgio. Lembro-me de muitas coisas. Muitas horas a estudar, a ler livros de aventuras, a ficar em pânico quando a minha irmã com três anos partiu a cabeça por ir a correr e bater com a cabeça na mesa-de-cabeceira. Lembro-me de estar a estudar e haver um sismo e ver os bibelots nas prateleiras a abanar. Lembro-me de ouvir muita música, escrever no meu diário, dançar um slow pela primeira vez com o meu melhor amigo de infância. Lembro-me de querer ser crescida e adulta e do tempo passar muito devagar. Lembro-me dos meus sonhos e revoltas de adolescente. E acima de tudo, lembro-me de ter uma bonita família e ser feliz.
Foste uma grande paixão. Foste um grande amigo. Eras moreno, cabelo e olhos escuros. Eras bonito. Foste Lisboa, Coimbra, Covilhã, Évora. Foste um bom arquitecto. Foste um bom fotógrafo. Olho para ti na fotografia cortada, com um véu de uma noiva no teu ombro. Gostavas de vestir-te de preto. Tento adivinhar o que pensavas naquele preciso momento. Ficavas algumas vezes triste e perdido. Ficavas sozinho. Depois acompanhado. Eras meu. Eras de tanta gente. Estavas feliz e ficámos sós sem ti.
O inferno não é só teu. Deixa-me entrar nele e sentir o que sentes. Não quero esperar sozinha. Quero ficar ao pé de ti. Lentamente vais sair dele e vamos encontrar-nos novamente nas nuvens onde nos conhecemos há muito tempo. Finalmente podes descansar lá comigo no meio das palavras e do silêncio que nos faz bem. Depois posso adormecer ao teu lado a ouvir aquela música que te fez chegar até mim.
- O meu colega aqui do lado passa-se com os Gb de música que tenho. É incrível quando vejo que há pessoas que passam a maior parte do tempo sem ouvir música. Não faz parte da vida deles. - É porque não têm vida própria. É total e completamente impossível viver sem música. Tudo é música. - É triste. Não entendo. Para mim esta música rebenta a escala. - Até uma máquina de lavar roupa a trabalhar me serve para começar a fazer uma melodia por cima da cadência do tambor da máquina a girar, ora para a direita, ora para a esquerda. Eles é que não sabem que não passam sem música. - E na centrifugação? - A dos National - Sim. Gosto de todos os sons desta música. E logo do inicio "I know you're a serious lady". - Sai em 2010 o novo álbum deles - É? - Mas espero que eles toquem músicas novas no Sudoeste e mais músicas do Sad songs for dirty lovers. - Sim, era muito bom. Esse álbum é tão bom - Alias, vou berrar bue Available que só vi uma vez em Paredes. A centrifugação é o final, é como se fosse uma bateria em alto speed até a música terminar. É o mosh.
Sente-se deveras lixado por ela não lhe ligar. Aliás ninguém imagina a raiva que sente por tal rejeição. Já foi há tanto tempo que ela lhe disse que podiam ser apenas amigos. Mas ele não queria a amizade dela. Ele é daqueles homens muito machos que não vê as mulheres como amigas. Jamais pensou ter uma amiga. Fica revoltado por imaginar que ela é feliz sem ele. Fica deveras despeitado e nunca lhe perdoou o facto de ela não o querer da forma que ele deseja. Já pensou em seguir todos os passos que ela dá, armar-se em detective e saber tudo o que ela faz. Já teve tanta vontade de agarrá-la e prendê-la e dizer-lhe: - Agora és minha! A maior raiva que sente é consigo próprio por ser tão cobarde. Todos os dias envia-lhe cartas anónimas a insultá-la. No início ela lia as cartas dele. Sentia-se magoada com as palavras que lia e nem imaginava porque alguém poderia sentir tanta raiva por ela. Depois deixou de abrir as cartas. Rasga-as sem ler. Mas afinal o que é que isto interessa? E ela responde: - Nada.
Existe um pequeno grupo de pessoas de quem eu gosto muito. Elas fazem-me aprender todos os dias. São pessoas fortes e nem sabem disso. Vejo-as todos os dias na minha vida. Sinto as suas tristezas e alegrias. São sem duvida pessoas especiais para mim. Nem sempre estou perto delas. Mas sei que existem. Obrigada.
Como todas as pessoas, já tomei decisões importantes ao longo da minha vida. Houve duas que mais me marcaram talvez por terem sido as mais complicadas. Nesses momentos existiram sempre dois caminhos entre os quais tive de escolher. Numa delas, decidi pelo caminho mais fácil. Mais tarde percebi que não foi a decisão acertada e ainda hoje tenho de viver com essa consequência. Na outra, optei pelo caminho mais difícil e com mais pontos de interrogação. Uma decisão que destruiu tudo aquilo em que eu acreditava mas que depois me libertou. Penso que a melhor decisão, é quase sempre o caminho mais difícil, que nos tira um bocado de nós e mais tarde nos dá a paz.
As you lie before me now, like a shadow On a pea green sea Never thought that I could find you so hollow Laying into me
But this cup of wine All salt and brine makes me sleepy A sorrow so A field of tears that will never yield a single penny But I don't know I've got nothing to hold on to
Wished for gold so I could buy you a palace By the riverside You'd come in and I would fill your diamond chalice You were still alive
But this cup of wine All salt and brine makes me sleepy A sorrow so A field of tears that will never yield a single penny But I don't know I've got nothing to hold on to I've got nothing to hold on to
Were you sleepless, tearing at the air? Was the water everywhere? Were you fretful, to wade into the room? I'd been wanting to hear from you Oh, no
Hand it over Hand it over You're weary, lay him down You did your time so thank you very much Hand it over Hand it over So now your hopes are all laid But you hand it all away
Did his eyelids fix on empty chairs You had traveled to lay beside? A gentle torture to watch it all recede And all the while your mother slept beside him Oh, no
Hand it over Hand it over You're weary, lay him down You did your time so thank you very much Hand it over Hand it over So now your hopes are all laid But you hand it all away
Were you sleepless, tearing at the air? Was the water everywhere? Were you fearful, and long to run away From the cold clasp of Illinois? Oh, no
Hand it over Hand it over You're weary, lay him down You did your time so thank you very much Hand it over Hand it over So now your hopes are all laid But you hand it all away But you hand it all away
Faz hoje vinte e nove anos, eu era uma menina e fiquei sem o meu avô que me chamava flausina com carinho. Faz hoje dez anos, eu era uma mulher feliz por acreditar no amor.
Já não me roubas. Já não me dás. Silêncio infernal. Espera angustiante. Palavras perdidas numa noite vazia. Manipulação. Não deixes. Por favor não te deixes arrastar. É tarde ou é cedo? A noite vai ser muito longa e não vou conseguir adormecer. Medo. Sê forte e encontra-te. Eu sei que estás aqui.
Quando eu era nova, em 1986, estava a acabar o 12º ano e ainda vivia na Figueira da Foz, houve um grande festival de folclore em que participavam vários países da Europa. Chama-se Europeade. A Câmara da Figueira decidiu abrir inscrições para os jovens serem guias desses grupos. Eu decidi inscrever-me e calhou-me um grupo italiano. Era um grupo coral “Coro dell’ Associazione corale Gran Sasso – L’Aquila”. Na altura fiquei assustada pois não sabia falar quase nada de italiano. Quando os fui esperar, vi dezenas de italianos a saírem de um autocarro e pensei que ia ser uma grande aventura. Passei uma semana com eles. Eram raparigas e rapazes bonitos, algumas pessoas mais velhas e o maestro que tinha uns setenta anos. Nas primeiras horas, lembro-me de achar que eles falavam muito rapidamente e eu só entendia metade do que eles diziam. Durante essa semana tínhamos de seguir um programa onde eles actuavam e também lhes mostrava a cidade e alguns locais de interesse. Almoçava e jantava com eles e o nosso grupo era um dos mais barulhentos e animados. Numa noite, no programa dizia que tínhamos de ir ver uma tourada. Decidimos que não queríamos ir e fomos beber uns copos. No dia seguinte, a direcção do festival chamou-me e repreenderam-me por não termos comparecido. Adorava ouvi-los cantar. Havia os “soprani”, “alti”, “tenori” e “bassi”. Tinham músicas tristes e outras muito alegres. No dia em que se foram embora, ofereceram-me um vinil deles (o volume III de Folklore Abruzzese) e que ouvi muitas e muitas vezes. Houve muitos beijos, abraços e lágrimas também. Fiquei a ver o autocarro partir e a dizer-lhes adeus. Ainda me correspondi durante algum tempo com a Patrizia e o Nicola. Depois perdi-lhes o rasto. Vários anos mais tarde e já muito mais crescida, soube que ia realizar-se novamente a Europeade na Figueira. Fui lá e enquanto via os vários grupos a desfilarem na rua, esperava ver os meus italianos. Até que avistei o Maestro Paolo Mantini. Fui ter com ele e abraçámo-nos. Nesse ano já não estavam todos os elementos mas foi muito bom revê-los. Entretanto decidi ir para o instituto de italiano e fui a Itália mas não fui a L’Aquila. Quando soube da noticia do sismo em L’Aquila e vi as imagens na televisão, fiquei muito triste. Pensei nos meus italianos, no privilegio que foi conhece-los e nos momentos que passei com eles. O vídeo que encontrei tem uma musica que eles tocavam e cantavam. Aqui fica.
Naquelas fotografias, nota-se a nossa ingenuidade e entusiasmo. Gosto de ver aqueles rostos e as roupas que vestíamos de uma forma despreocupada, porque o realmente interessava era o que estava dentro de nós. Tão bonitos que éramos, com aqueles sorrisos sinceros que têm sabor a sonho. Numa das fotografias acenámos adeus. Acenar um adeus numa fotografia é muito forte. Parece que adivinhávamos que aquele momento ia acabar ali. Mudámos tanto. O que nos aconteceu? O que perdemos? O que será feito de nós?
1. Exiba a imagem do prémio 2. Poste o link do blog que o premiou 3. Indique dez blogs para fazerem parte do “Manifesto Jovens que Pensam” 4. Avise os indicados. 5. Publique as regras.
Obrigada AP por me passares este importante testemunho :)
Aqui ficam 2 blogs bonitos de dois jovens que pensam e que também costumo visitar
- Entrei no meu carro muito mais cedo da hora em que saí do teu. E se não tivesse andado às voltas à procura de um lugar para estacionar o carro, tinha chegado a casa à mesma hora que saí do teu carro. - Eu estou sempre muito à frente do tempo. - Eu sei.
Depois de um dia cansativo e forte a conter emoções, precisava mesmo de extravasar a minha raiva acumulada. Sim, um concerto de Mão Morta como primeira experiência seria o ideal. Começou com ventos animais. Respirei fundo. Leva-me. As Tetas da Alienação, berra a verdade nua e a sala tem um cheiro podre de suor e mofo. E se depois, o sangue invade a sala e os que ainda não são velhos levantam-se. Arrastando o seu cadáver, visualizo o que já senti num vazio que ainda me percorre. Tu disseste, foi o tema que me hipnotizou. As nossas conversas, o nosso roubar. É um jogo, até morrer. Farta, cansada, velha. Vamos fugir. O meu lado que tu não conheces. Enlouquece comigo. Velocidade escaldante, o buraco sem fundo. O prazer, tudo parece bem e o resto não interessa. Oub’lá, termina com plateia inflamada. Os velhos levantam-se também. Fumo um cigarro cá fora e arrasto o meu corpo cansado para casa.
Fica sem ele, mas com ele para sempre. Amigos? Não, mais do que isso. Sim, cúmplices. Sim, conversas nuas. Longe ele toca-lhe o corpo. Longe sentem mais.
Na minha família não somos muito faladores. O meu avô era um homem de poucas palavras e o meu pai também. Por vezes sinto-me deslocada quando escuto as conversas de colegas minhas que parecem ter sempre um assunto para falar. Penso que elas também olham para mim como se eu fosse uma ovelha negra que degenerou. Tenho dias em que não tenho mesmo nada interessante para dizer. Tenho a certeza que era capaz de passar esses dias sem verbalizar qualquer palavra. Sempre preferi ouvir os outros. Gosto de ouvir as vozes, olhar para as bocas e gestos. E gosto das palavras escritas ou lidas. Gosto das palavras que me transportam para uma realidade completamente diferente da minha. Gosto de senti-las, viajar com elas e perder-me nelas.
"Já não estamos cercados. Os nossos carros voltaram e os outros não aguentaram. Não pude combater como devia ser por causa do pé mas encorajei o pessoal. Foi muito excitante. Conseguia ver bem da janela onde estava, os pára-quedistas que chegaram ontem batiam-se como diabos. Tenho agora um lenço de pescoço feito com a seda de um pára-quedas amarelo e verde sobre fundo castanho que joga bem com a cor da minha barba, mas amanhã vou-me barbear para gozar uma licença por convalescença. Estava tão excitado que atirei um tijolo à cabeça de Johnny que tinha falhado quando atirara o dele e agora tenho outros dois dentes a menos. Esta guerra não faz nada bem aos dentes."
As formigas - Boris Vian
La java des bombes atomiques - Boris Vian
E um excelente conto do meu amigo AP que na minha opinião tem influencias de Boris Vian.
O teu olhar perdido penetra-me. Penetro num labirinto de palavras. Dizes-me palavras ridículas e eu acredito nelas à distância A distância constrói castelos no ar que tocam o céu. No céu o balão voa e ainda não decidiu quando e onde vai descer. Descer não. Não tenhas medo e sente o vento, dizes. Com o vento adormeço e acordo sozinha. Sozinha, sempre. Chamas-me repetidamente e não ouço a tua voz. A tua voz não chega. Só a musica. Estou a ouvir aquela música quando percebo que sou uma ilusão e não existo.